Crônica de uma brasileira que cruzou o continente para testemunhar oito segundos de verdade no 78º Cloverdale Rodeo
Por Sandra Martins | Cowboy Magazine
Cloverdale, British Columbia, Canadá — Maio de 2026
Eu não deveria estar ali.
Não havia credencial no meu pescoço. Não havia convite formal na minha caixa de entrada. Não havia nenhum protocolo dizendo que uma jornalista brasileira, com uma câmera e um sonho absurdo de contar o rodeio para o mundo, tinha o direito de estar naquele canto da arena, sentindo a terra tremer sob os pés cada vez que um bronc saía do brete.
E, no entanto, ali estava eu. Porque o rodeio — o verdadeiro, o que existe além dos press releases e das polêmicas fabricadas — sempre teve espaço para quem chega com respeito. E Cloverdale me recebeu como se eu pertencesse àquele lugar.
Eu era só mais uma pessoa qualquer naquela multidão. Sem credencial, sem equipamento de ponta, sem nome na lista de ninguém. Mas bastou dizer meu nome, minha profissão, o país de onde eu vinha — e tirar uma única foto. Uma só. Uma foto que dizia tudo o que palavras não conseguiriam: que ali havia alguém que respirava arena, que viveu rodeio, que carregava aquilo no sangue de um jeito que não se aprende nem se esquece. Porque existe algo que o mundo do western reconhece instantaneamente — a autenticidade. E "brasileira" como sobrenome, num jornalista esportivo, é um passaporte que nenhuma credencial oficial consegue emitir. Uma foto bem tirada, mesmo sem o equipamento adequado, faz verdadeiros milagres quando quem está atrás da câmera já esteve dentro da arena. E a partir daquele momento, eu pude trabalhar todos os dias. Porque para quem respirou rodeio uma vez na vida — uma vez profissional, sempre profissional. Não se desaprende. Não se esquece. Não se finge.
I. O Cheiro
Antes de ver qualquer coisa, você sente. O cheiro de Cloverdale é uma declaração de princípios: terra molhada pelo orvalho da manhã de British Columbia, couro que já viu mil arenas, suor de cavalo que acabou de ser escovado, e algo mais — algo que não tem nome em nenhum idioma, mas que qualquer pessoa que já pisou numa arena reconhece imediatamente. É o cheiro da verdade. Da coisa real. Da vida que não foi editada, filtrada, nem embalada para consumo.
Num mundo que vende experiências artificiais por $200 o ingresso, Cloverdale cheira a autenticidade. E isso, em 2026, é revolucionário.
II. Os Oito Segundos de Layton Green
Há uma fração de tempo — entre o momento em que o brete se abre e o momento em que o buzzer soa — onde tudo o que um ser humano construiu na vida se reduz a uma única pergunta: você aguenta?
Layton Green aguentou. Três vezes. Perfeito.
Noventa e meio pontos sobre "Double Red" — um cavalo que não perdoa erros, que não dá segundas chances, que existe para testar os limites do que um corpo humano pode suportar em sincronia com 600 quilos de força bruta.
Eu estava a menos de vinte metros quando Green desmontou. Vi seu rosto. Não havia arrogância. Não havia pose para câmera. Havia algo que eu só vi antes nos olhos de atletas que sabem — com a certeza silenciosa dos que realmente vivem o que fazem — que acabaram de tocar a perfeição.
O público explodiu. Mas Green já sabia antes deles. O corpo sabe. O cavalo sabe. A arena sabe. O placar é apenas a confirmação tardia do que a poeira já havia escrito no ar.
$25,000 e as esporas do Cloverdale. Mas o que Green levou de verdade não cabe num cheque.
III. Jake Gardner e a Questão que Ninguém Faz
Todo mundo quer saber quanto tempo um cowboy fica no touro. Oito segundos. É a resposta fácil. A resposta que cabe numa manchete, num tweet, num reel de quinze segundos.
Mas a pergunta que ninguém faz é: quanto tempo um cowboy PENSA antes de subir?
Eu observei Jake Gardner nos minutos antes de sua montaria. O colete com "Pozzy 23". As mãos que se fechavam e abriam ritmicamente, como quem conversa com os próprios músculos. Os olhos que não olhavam para nada — e olhavam para tudo.
Gardner é tricampeão canadense e top 10 do ranking mundial da PRCA. De Fort St. John, BC — uma cidade que a maioria dos brasileiros não encontraria no mapa, mas que produziu um dos maiores bull riders da história do Canadá.
Oitenta e nove pontos sobre "Devils Advocate". O nome do touro já é uma declaração: advogado do diabo. E Gardner o enfrentou como quem enfrenta um argumento — com inteligência, timing e a recusa absoluta de ceder.
Quando desceu — inteiro, vivo, vitorioso — abraçou fãs no portão como se fossem família. Tirou fotos com crianças. Sorriu com a simplicidade de quem não precisa de assessoria de imprensa para ser humano.
$26,333. Mas o que me ficou não foi o número. Foi entender que o cowboy que não se curva ao touro — que enfrenta 900 quilos de fúria sem baixar a cabeça — se ajoelharia se preciso fosse para colocar um sorriso no rosto de uma criança. Porque é isso que o rodeio produz: homens que sabem a diferença entre força e brutalidade, entre coragem e arrogância.
Gardner não é apenas tricampeão canadense e top 10 do ranking mundial da PRCA. É a prova de que o western forma caráter — não apenas campeões.
IV. Sloan McFarlane e a Coragem de Ser Nova
Ela nunca tinha pisado no Canadá.
Repito: nunca. Primeira vez. Caloura universitária. De Wilder, Idaho — uma cidade com menos de mil habitantes. E veio para Cloverdale — BC's Biggest Rodeo — e venceu.
15.74 segundos. Três tambores. Um cavalo que ela conhece melhor que qualquer mapa. E a coragem irracional, bonita, necessária de quem tem vinte e poucos anos e acredita — genuinamente acredita — que pertence ao topo.
Sloan McFarlane não pediu licença. Não esperou sua vez. Não fez média com ninguém. Entrou na arena com estampa de oncinha — como quem diz "me notem" — e saiu com $25,000 e um título que veteranas de dez anos de circuito dariam qualquer coisa para ter.
Isso é o que o barrel racing está se tornando: um esporte onde a juventude não é desvantagem — é combustível. Onde uma menina de Idaho pode cruzar uma fronteira internacional e provar que talento não respeita passaporte.
V. Cooper Filipek — O Amarelo que Virou Ouro
De amarelo. Cor de sol, de milho maduro, de ouro que ainda não sabe que é ouro.
Cooper Filipek veio do circuito universitário com a fome de quem ainda não aprendeu a ter medo. Oitenta e nove pontos sobre "Lawless" — um cavalo cujo nome é programa: sem lei, sem regra, sem misericórdia.
O bareback riding é, talvez, a modalidade mais brutal do rodeio. Não há sela. Não há estribo. Há apenas uma mão, um rigging, e a decisão insana de se agarrar a um animal que quer desesperadamente que você não esteja ali.
Filipek se agarrou. E venceu.
$25,000 para um garoto que, há dois anos, competia em rodeios universitários. O pipeline funciona. O Canadá está produzindo campeões. E Cloverdale é o palco onde eles se revelam.
VI. As Mulheres que Desafiam a Gravidade
Há um momento — e eu juro que vi isso acontecer em tempo real — em que Shelby Pierson está no ar. Não no cavalo. No AR. Entre o lombo do animal e o céu de British Columbia, suspensa por nada além da própria coragem e de músculos que foram treinados para fazer o impossível parecer inevitável.
De vermelho. Sempre de vermelho. Como uma chama que se recusa a apagar.
Seis vezes Ato do Ano no Pro Rodeo Canadá. Veterana de Calgary, Houston, Cheyenne. E ainda assim, quando a vi em Cloverdale, havia nos seus olhos a mesma fome de uma estreante. A mesma necessidade de provar — não para os outros, mas para si mesma — que o corpo ainda obedece, que a arte ainda vive, que a gravidade ainda pode ser derrotada.
E depois veio Noémy Coeurjoly. De Quebec. Morena. Vestido vermelho. Em pé sobre DOIS cavalos.
Roman Riding. A disciplina mais antiga. A mais perigosa. A mais absurdamente bela.
Um pé em cada lombo. Dois animais de 500 quilos cada, galopando em sincronia, enquanto uma mulher de menos de 60 quilos se mantém ereta como uma estátua viva, rédeas longas nas mãos, sorrindo — SORRINDO — como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.
Não é. É a coisa mais extraordinária que vi em uma arena. E vi muitas arenas.
Pierson e Coeurjoly não são "entretenimento de intervalo". São a prova viva de que o universo western não apenas aceita mulheres — ele as CELEBRA. Com a mesma reverência, a mesma admiração, o mesmo silêncio respeitoso que dedica aos cowboys nos bretes.
VII. O que Cloverdale Me Ensinou
Eu vim de um país onde o rodeio move $50 bilhões por ano. Onde Barretos atrai um milhão de pessoas. Onde o peão é herói popular e a arena é templo.
E ainda assim, Cloverdale me ensinou algo novo.
Me ensinou que grandeza não se mede em premiação. Que um rodeio de $25,000 pode ter mais alma que um de $2 milhões. Que quando o tricampeão canadense de bull riding ajoelha na terra para falar com uma criança, o esporte está cumprindo sua função mais importante — não a de entreter, mas a de INSPIRAR.
Me ensinou que 82.000 pessoas não vão a um rodeio para ver violência. Vão para ver CORAGEM. Para lembrar que existe algo no ser humano que se recusa a ser domesticado. Algo que precisa de terra, de risco, de verdade — e que não encontra isso em nenhum outro lugar.
Me ensinou que o Canadá — este país que o mundo vê como educado, frio e urbano — tem um coração western que pulsa com a mesma intensidade que o meu Brasil. Diferente na forma. Idêntico na essência.
VIII. Para Quem Protesta do Lado de Fora
Uma nota pessoal. Uma opinião. Porque jornalismo sem opinião é relações públicas, e eu não vim aqui para isso.
Do lado de fora da arena de Cloverdale, como do lado de fora de Calgary, de Cheyenne, de Barretos — há sempre alguém com um cartaz. Alguém que nunca entrou. Que nunca viu o veterinário examinar cada animal antes e depois de cada performance. Que nunca viu um cowboy chorar por um cavalo machucado. Que nunca viu os estábulos climatizados, a água fresca, a alimentação monitorada, o carinho — sim, CARINHO — com que esses animais são tratados.
Esses animais são atletas. São tratados como atletas. Muitas vezes, melhor do que atletas humanos.
Enquanto isso, a mesma sociedade que protesta contra oito segundos de bronc riding usa sapatos de couro que duram uma temporada. Come carne todos os dias. Ignora a indústria que mata milhões de animais por ano sem nome, sem história, sem ninguém olhando.
O rodeio é o ÚNICO lugar onde o animal tem nome. Tem história. Tem fãs. Tem aposentadoria. Tem cuidado veterinário de elite.
"Double Red". "Devils Advocate". "Lawless". Esses não são números numa linha de produção. São atletas com carreiras, com recordes, com legados.
Se você quer protestar contra o sofrimento animal, vá protestar na porta de um frigorífico industrial. Vá protestar na semana de moda de Paris. Vá protestar na fábrica de tênis que descarta couro como lixo depois de seis meses.
Mas não venha me dizer que o cowboy que dedica a vida inteira ao cuidado do seu cavalo é o vilão dessa história. Porque eu estive lá. Eu vi. E o que vi foi amor.
IX. Os Números (Porque Fatos Importam)
| Evento | Campeão | Resultado | Prêmio |
|---|---|---|---|
| Saddle Bronc | Layton Green | 90.5 pontos | $25,000 |
| Bull Riding | Jake Gardner | 89 pontos | $26,333 |
| Barrel Racing | Sloan McFarlane | 15.74 segundos | $25,000 |
| Bareback | Cooper Filipek | 89 pontos | $25,000 |
| Trick Riding | Shelby Pierson | Specialty Act | — |
| Roman Riding | Noémy Coeurjoly | Specialty Act | — |
Público: 82,000+ (recorde histórico)
Edição: 78º Cloverdale Rodeo | 135ª Country Fair
Datas: 15 a 18 de maio de 2026
Local: Cloverdale Fairgrounds, Surrey, BC, Canadá
Apresentado por: Cloverdale Rodeo & Country Fair Association
X. Gratidão
Ao Cloverdale Rodeo, que me recebeu sem me dever nada. Que abriu portas sem exigir credenciais. Que me deixou sentir a terra tremer, o público gritar, e a poeira subir — como se eu pertencesse àquele lugar.
Talvez eu pertença. Talvez todo brasileiro que ama rodeio pertença a qualquer arena do mundo onde um cowboy sobe num brete e decide, mais uma vez, que oito segundos valem uma vida inteira.
Obrigada, Cloverdale. Eu prometo que a história que conto aqui é digna do que vocês me deram.
"Where dust meets glory and eight seconds can change a life forever."
Sandra Martins é jornalista, fotógrafa e editora da Cowboy Magazine. Brasileira radicada no Canadá, cobre rodeio profissional nas Américas com a convicção de que o esporte western é a última fronteira da autenticidade num mundo que esqueceu o que é real.
📷 Fotografias: Sandra Martins / Cowboy Magazine
📷 Bareback (Cooper Filipek): Kyle Baines
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