O Vento Que Queima: Memórias da Poeira de Calgary
Por Sandra Martins | Para a coluna Cowboy Soul
Há um calor em Alberta que não vem apenas do sol implacável de 36 graus. Ele sobe do chão de terra fervente, penetra pelas botas e se instala em algum lugar entre o estômago e a garganta. É o calor da antecipação. Quando o relógio marca 1:30 da tarde, sob um céu claro e sem nuvens, e o silêncio denso cai sobre as arquibancadas lotadas, você percebe que o Calgary Stampede não é um lugar no mapa. É um estado de espírito.
A poeira se acumula na aba do chapéu. Ela gruda na lente da câmera, no suor do rosto, no canto dos olhos que não podem piscar. Porque quem cobre rodeio de verdade sabe: você não fecha os olhos quando um cavalo de meia tonelada passa pulando a centímetros de você. Você segura a câmera, trava o foco e reza para que a areia que acabou de entrar nos seus olhos não borre a imagem. E quando o baque surdo dos cascos estremece o chão da arena, tão perto que você sente a vibração subir pela sola da bota, você entende que isso não é um esporte de espectadores. É um esporte de sobreviventes. Todos nós ali — competidores, fotógrafos, tropeiros — somos feitos da mesma matéria: pó, brutalidade, coragem e persistência.
Não importa o país. Não importa o idioma. O cheiro de boi e breu, de poeira e couro sovado, são como o cheiro de casa para quem sabe o que nos faz cowboys. É o mesmo cheiro no fundo do brete em Calgary, em Barretos, em Pendleton. É o mesmo silêncio antes da porteira abrir. A mesma conversa com Deus e com o pai, sussurrada enquanto as mãos sovam a corda com breu, pensando em como descer a perna no boi, espalhando na ferragem, buscando o encaixe perfeito entre homem e animal. É o mesmo privilégio sagrado de dançar na arena com um parceiro de uma tonelada que não ensaiou a coreografia.
Vi homens que pareciam feitos de aço derreterem em lágrimas ao tocar uma fivela de bronze. Vi cavalos gigantescos — montanhas de músculos e fúria — que, por oito segundos, ensinaram aos humanos o verdadeiro significado da palavra liberdade. A arena de Calgary é um altar onde o homem moderno, anestesiado pelo conforto de suas telas, vem buscar a cura através do perigo. Não há aplicativo que simule o baque de um casco rachando o silêncio. Não há filtro que embeleze o suor que escorre do rosto de um competidor que acabou de apostar a própria vida contra a gravidade.
Caminhei pelo Elbow River Camp sentindo o cheiro da fumaça doce que subia dos tipis. O som dos tambores das Primeiras Nações não era um show para turistas; era o batimento cardíaco da própria terra, lembrando a todos nós que somos apenas visitantes de passagem. Naquele acampamento, entendi que a tradição não é uma âncora que nos prende ao passado, mas uma bússola que nos impede de enlouquecer no futuro.
E no meio daquela imensidão estrangeira, ouvir um sotaque brasileiro rasgar o ar seco canadense é uma experiência que desafia a lógica. O respeito que encontrei em Calgary, forjado há anos com lendas como Dale Leschiutta e perpetuado por gigantes como Filipe Masetti Leite, me fez perceber que a alma do cowboy não reconhece passaportes. Ela reconhece calos nas mãos. Reconhece o olhar de quem já torceu pelo sorteio do animal certo. Reconhece quem já sentou no lombo de um boi e sentiu o mundo inteiro caber em oito segundos.
Calgary me ensinou que o rodeio não é sobre dominar a fera. É sobre aceitar que, por oito segundos, você e a fera são a mesma coisa: poeira, vento e desespero tentando tocar o céu. O vento quente de Alberta ainda sopra na minha memória. No sábado de competições, esse mesmo vento foi tão forte que arrancou meu chapéu da cabeça. Eu o vi voar e pousar exatamente no palco, aos pés de um dos campeões do dia. Antes que eu pudesse reagir, ele, com a humildade e gentileza que só os grandes possuem, saiu da fila de espera do prêmio, caminhou até mim e me devolveu o chapéu. Fiquei envergonhada. Mas, ao mesmo tempo, profundamente honrada. Porque, afinal, cowboy não se traduz. Se reconhece. E eu me reconheci ali, na gentileza daquele gesto e em cada grão de terra fervente daquela arena.